O Mandatário (Capítulo 5)

De repente, começa a chover.
A imagem do jardim, parcamente iluminado. Discernem-se os largos troncos das muitas árvores que povoam o terreno castanho, pouco esverdeado. A água cai sobre os ramos e as folhas, de forma carregada.
A água também caía de forma carregada naquela noite. John sabe que não se passaram ainda mais do que setenta e quatro horas e sete minutos sobre esse momento. É normal que esteja presente, de forma clara e arrebatadora. Foi um momento simples, isolado. A chuva caía e John estava em casa, e, tal como agora, encontrava-se junto à janela. Não havia jardim, mas uma rua; nada de árvores, só casas  lisboetas. Ouvia-se o som das gotas nas viaturas. Tal como hoje, nada de vento.
Uma das coisas de que Marta mais gosta é o Inverno. O frio na rua e o quente da casa. A estrutura das mantas, dos chás, dos scones e bolachas feitos no forno. Das séries românticas que dão na televisão, da moleza que invade os corpos. O frio lá fora, e o calor cá dentro.
John nunca gostou do Inverno. Considera que é impossível alguém gostar de uma estação em que a temperatura é inferior a dezanove graus celsius (John diz que dos dezanove para os vinte graus a diferença é imensa). O frio faz-lhe confusão, física e emocional. Sempre que o Inverno chega, John hiberna para o quarto de casa, assolado por uma falta de vontade extrema para a vida. Apenas a rádio, os livros de filosofia política e os jogos da Liga Inglesa de futebol ao fim-de-semana o conseguem entreter.
Marta mudou isso. Tirou o jovem mandatário da toca, obrigando-o a viver os dias de frio de outra forma. Chegava cedo a casa de Smith, partilhando com ele o seu prazer por esta temporada estival. Tudo com muito tacto, muito carinho, muita paciência. E muita simpatia. Aos poucos, John viu-se encantado por aquela rotina de fim-de-semana, que ambos começaram a prolongar para as noites depois do trabalho. Falavam, riam-se, troçavam um do outro, e aconchegavam-se debaixo de uma velha manta de Marta. Nada de mais, mas incrivelmente bom. Incrivelmente caloroso.
A chuva começa a cair com mais força. As folhas começam a cair dos ramos. Sobre as luzes do jardim, folhas grandes e verdes de figueira, a tapar a terra.
Vem-lhe à cabeça a mulher-avião. Houve uma vez que Marta se vestiu assim, só para ele. John tinha-lhe dado a chave no escritório, disse que ia só acabar uma peça e depois seguiria, para ele ir andando e ir fazendo os scones. Quando chegou a casa, Marta abriu-lhe a porta, vestida com uns sapatos de tacão alto, fino; um vestido justo, vermelho; dois anéis, no anelar e no médio; um colar de pérolas e um baton mais escuro. John nunca a tinha visto como a estava a ver naquele momento, arrasadora. Marta pegou-lhe pela mão e levou-o até à mesa da sala, onde um jantar simpático os esperava. Em vez de chá serviu-lhe vinho. Aos scones, juntou compota. E por fim, pegando-lhe na mão, levou-o para o quarto, onde a manta cobria o colchão.
Marta, a ternura tornada viva, a pachorrenta entusiasta invernal transformada em mulher.
John afasta a imagem. Tinha feito o mesmo há três dias atrás. Na altura, pensou em abrir a janela, colocar a cabeça de fora e ficar assim, por cerca de trinta e sete minutos (mais segundo, menos segundo), a apanhar com a chuva na cabeça. Resolveu sentar-se, no sofá, e depois cair, deitando-se como pudesse. Sentiu o frio da noite na pele, mas não procurou cobrir-se. Nada de mantas. Nada de Marta.
Na rádio ouvia-se uma balada. Não há nada pior numa noite de merda do que começar a ouvir uma balada pensou John. A rádio alternativa que costumava ouvir pôs a passar Blue, da norte-americana Waxatahatchee. Um daqueles discos que John adorou à primeira e que sabia — e que sabe — que Marta nunca gostaria. E, no entanto, é como se ela ali estivesse: aquela memória que vive como espaço demasiado presente, demasiado intenso para se suportar. Não há tempo que o valha.
John abre a janela e coloca a cabeça de fora. Deixa-se ficar, sem marcar tempo, ali. Sente a água na raiz dos cabelos, descendo pelo pescoço, atrás das orelhas. Estes dias não estão a ser nada fáceis, pensa John. O Vidago não está a ser nada fácil, John.
E de repente, a chuva pára.

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O Mandatário (Capítulo 3)

“As instruções são claras.”

E depois o comentador cala-se. Só se houve o eco da piscina. É impressionante o espaço sonoro que se cria nesses momentos. A expressão “de cortar à faca” tem uma acutilância atroz. Por uns segundos, enquanto o mergulhador sobe as escadas e se põe, em pose, de costas para a água, com os pés na ponta da prancha, parece que o mundo parou. Um sufoco gritante, uma paisagem em câmara lenta, mas real. O instante que não pára de durar. John pensa o quão doloroso devem ser aqueles segundos para quem salta. Na realidade, objectivamente falando, não é nada. Mas ali, na outra realidade, é a eternidade que se monta. Uma eternidade ansiosa, terrível, mas irónica, porque no fim de contas é finita. E o personagem, um chinês com cara de vinte e um anos e três meses (os asiáticos são difíceis de adivinhar quanto à idade, mas John confia nos seus números) agarra o tempo com o salto, um mortal enrolado e veloz, quase instantâneo, tecnicamente imaculado, concluído numa explosão de água clorificada. Palmas, repetições, números no marcador debaixo.

“Tecnicamente imaculado”, diz a voz impessoal do comentador.

“As instruções são claras” diz John, olhando para o televisor, com o papel na mão. São vinte e uma horas e dois minutos. John não pára de contar.

A noite caiu já há muito. Faz frio no Vidago: os carros estão com os vidros embaciados. John dá mais uma volta ao quarto, a quadragésima-sétima desde que chegou e viu o bilhete. O papel é bom, duro, dum branco raspado. Tem gosto. Quem quer que o tenha deixado tem pinta, sabe o que pretende. John tenta imaginar quem foi, se um homem ou uma mulher, um ganguester de casaco bera ou uma pêga de cueca à mostra. Ou então um simples empregado, com ordens precisas. Como dizia o outro, com “instruções claras”. John já não tem idade para isto. Não tenho idade para isto. Não tem idade para pensar quem lhe deixou bilhetes debaixo da porta, como nos policiais dos anos setenta, ou nas comédias românticas de domingo à tarde da televisão generalista. Não, John não tem idade para charadas e tempos perdidos. É um homem condenado a um fim indesejável. Já passou o tempo da juventude, agora é o tempo da sabedoria. E esta não quer nada com bilhetes debaixo da porta.

Na televisão, prepara-se para entrar o mergulhador canadiano. Dezanove anos e três dias. Cinco, aliás.

Não percebo o que se passa aqui. O mandato não deixa margem para dúvidas: recolher assinaturas, trazê-las de volta. Depois já se sabe, uma entrada nada triunfal em Lisboa, na Braamcamp, com palminhas falsas, olhares cínicos, um ou outro comentário forçado, o último cheque, hasta la vista baby que vou ficar com a tua miúda. Ou seja, simples.

O canadiano tem um ligeiro erro na execução, ao não dobrar os joelhos de forma adequada quando realiza o segundo mortal. A repetição é inatacável, não lhe justificando os protestos pela décima a menos que teve em relação ao chinês. É preciso saber perder, também. É preciso levar o contrato para ele ser assinado. Fazem o mandato num domingo, para que tudo aconteça na segunda. Mas o local não existe, um dos assinantes não atende, os chefes também não. Tento ligar vinte e quatro vezes, mas nada. O mandatário está por sua conta. Regressa-se ao hotel e há um bilhete, escrito num bom papel. Bar, vinte e duas horas. O comentador diz que o canadiano precisa de ter paciência, pois as instruções são claras: os joelhos não se podem dobrar. Preciso duma bebida.

O mini-bar só tem água das termas do Vidago. John amaldiçoa, neste momento, todos as tentativas de promoção regional que estão agora muito em voga, e que, apesar de legítimas e benéficas para a economia da zona e, consequentemente, do país, o privam do prazer alcóolico que necessita urgentemente, por cautela de sanidade. Liga para o serviço de quartos e pede uma aguardente.

“Qual, senhor Silva?”

“Qualquer uma, pode até ser da zona. Aliás, tem de ser da zona. Sabe, para apoiar a economia local.”

“Muito bem. Relembro-lhe que não paga nada, Sr. Silva, está tudo incluído na conta.”

“Mal era se não estivesse, não é?”

O rapaz não percebeu. Ninguém percebe piadas de condenados, John. Mas Silva não se importa, e volta a olhar para o ecrã da televisão. Preparam-se as provas femininas, com uma mergulhadora italiana. John quer dar-lhe pouco mais de dezoito anos, mas não sabe quanto, exactamente. Está mais preocupado, neste momento, com o envelope dourado que trouxe, onde mora a causa de toda esta viagem. Chamam-lhe o contrato.

O mais engraçado disto tudo é que nem sequer faço ideia do que consta no contrato. Para o Dr. Correia o assinar, tem de ser algo grande. O Dr. Correia é dos maiores clientes do escritório. Nunca o conheci pessoalmente, mas pelo que li e ia sabendo dele sempre me pareceu um tipo esperto, daquelas velhas raposas empresariais que este país produzia antes da revolução. Um tipo teso, com valores. Ganhei-lhe um caso uma vez, quando foi expulso da Holding da família pelos irmãos. Foi dos meus melhores trabalhos, doía-me a tola só de abrir os olhos e ia perdendo toda a vida social que ainda poderia ter. Mas sabia que tínhamos razão, que íamos conseguir sair por cima. Sabia que a justiça estava connosco. É a melhor sensação que se tem, quando fazemos alguma coisa boa, à séria. Não são muitas as oportunidades, mas ali tive-a. Consegui que ele voltasse ao controlo do negócio, e que recebesse uma indemnização choruda de sete dígitos (mais juros, claro). Mas nunca o vi, nunca lhe falei, durante todo o processo. “Problemas de saúde, complicações da idade”. Passados uns meses vieram entregar uma encomenda ao escritório, e a Lúcia foi deixá-la na minha mesa. Era uma caneta, com um bilhete de agradecimento. Não percebo piva de canetas, mas dava para ver que aquela era uma relíquia, até a caixa brilhava. E no bilhete só estava a assinatura dele, impecavelmente presente. Afonso Salvador Puga Correia. Senti-me agradecido. 

Batem à porta nesse instante, quando a italiana chapa de fuça na água. Deve ser a aguardente. Ao abrir vê a recepcionista boazona, segurando uma bandeja com o copo e a garrafa. Está com um sorriso horrorosamente carregado de batôn. John agradece, pega na bandeja e vê-a partir até desaparecer totalmente de vista no corredor. Pensa que não é normal recepcionistas de hotéis de cinco estrelas virem ao quarto dos hóspedes entregar bebidas. Pensa, também, que é igualmente anormal não estar ninguém no local combinado à hora marcada para assinar um contrato que deve ser importante. E quanto ao bilhete do bar, o que pensa o nosso herói? John enche o copo e dá um trago, antes que fique doido.

A tosse vem de seguida, rasgada, com o ardor do álcool ainda a passar-lhe pelo peito. A bebida é forte, raçuda, e arranha todas as cordas vocais e mais algumas. Era mesmo o que precisava. Olha para o relógio, são nove e vinte sete. Hora de ir. Bebe mais um golo, pousa o copo e vai lavar os dentes.

O bar fica junto à recepção. John até o acha engraçado, minimamente bem decorado, com boas cadeiras. As pessoas falam alto, mas não se ouve uma palavra de português no meio de tanto dialecto estrangeiro. Um piano ficava bem ali, ao canto, para entreter e dar algum balanço às conversas, mas a música jazz que soa pelas colunas (tudo standards bem tocados) assenta que nem uma luva ao espaço. Em suma, temos ambiente.

John está no balcão, de pé, com um copo de whisky com duas pedras de gelo. atento ao que o rodeia. Acha que um piano era essencial para que este sítio pudesse ser mais do que é, um lugar onde o tempo ultrapassasse qualquer emoção. Imagina Rufus Wainwright, no seu modo mais conciso, frágil, nada pavoneante, mas divertido, a entreter uma melancólica noite de Novembro. Pensa nisso, em baladas ao piano que pesam ainda mais as palavras do canadiano, duras, muito duras, para pessoas que como John têm uma dor qualquer para esquecer, uma raiva que é no final de contas inconsequente, e que, tal como o seu portador, está irremediavelmente condenada. Pela primeira vez desde que soube que ia ser despedido e que ia perder Marta, talvez para sempre, John sente a derrota de forma triste e indomável. Gira o copo, as pedras batem. Dá um golo, mas o malte só lhe aquece a memória e carrega a canção, sobre um jantar às oito, hora certa e marcada. Somewhere near the end of the world / somewhere near the end of our lives. As canções não nos dizem nada que não saibamos, mas intensificam, e de que maneira, uma cacofonia que teimamos em inspirar. John acha que isto tudo se deve à bebida. Aquela aguardente era boa. Muito, mas muito boa. E este copo também não é nada mau. Tudo culpa da bebida. Temos noite, John Silva.

Nisto, tocam as 21:58. Qualquer coisa pode acontecer. Mas o paradigma da sala permanece intacto, controlado, na mesma. John pensa se deve dar mais um gole, pelo sim pelo não. Ou as coisas mudam, ou ele é que muda. E de repente, enquanto os olhos pensantes lhe fogem para a entrada, eis que surge um acontecimento, em cheio na sua direcção. Ninguém pára, ninguém olha. Mas é difícil dizer que está tudo na mesma, porque não está. Percebe-se isso pelo espaço, pelo ar. Alguma coisa no ar, sim.

John fita-a, de baixo para cima. As mulheres têm de se olhar assim, dos pés à cabeça: é uma regra. Um tacão alto, fino, sapato padrão de réptil, a frente redonda. As pernas nuas, enormes, tão grandes, e um vestido verde-claro parece que não chega para as cobrir até ao joelho, para bem de todos os nossos pecados. A pele reluzente, tratada. John pensa o quão suave aquelas pernas e aqueles braços devem ser. Como será tocar naquela pele? E o que estará por debaixo do vestido, já de si curto, enrolado ao pescoço e deixando os ombros descobertos? Sardas nos ombros, cabelo dourado, como as pulseiras que traz no braço esquerdo. Os olhos são verdes cor-do-vestido, prontos a roubarem qualquer um que os almeje. Em suma, uma deusa que te comia ao pequeno-almoço sem precisar de mastigar e depois te deixava na miséria do amor para pensares melhor no que é que queres realmente fazer da vida. Uma super-modelo de alta parada, que dá todo um novo sentido à mui brejeira mas terrivelmente acutilante expressão nortenha “avião”. E avança para o balcão do bar. Não, nada disso John. Avança para ti. Toda ela para ti, chegando, parando, respirando, à tua frente.

“John Silva?”

Temos noite, John. Oh sim, se temos.

O Mandatário (Capítulo 1)

John Silva, parado no trânsito num dia de sol em Lisboa. Domingo, dezassete horas e trinta e sete minutos.

Lou Reed morreu. Foda-se. O dia até estava bom, e ele faz-me isto. Que tragédia. Uma só morte, mas tanto impacto. Apetece-me falar sobre a pequenez das coisas, de como me sinto. Mas não consigo. Os carros nunca mais andam, e eu não consigo. Simplesmente não consigo. Foda-se. Foda-se para isto tudo.

O trânsito anda à velocidade de cinco ponto três quilómetros por hora, segundo o velocímetro do GPS japonês que John instalou no seu bólide alemão há mais ou menos dois meses. No rádio do carro toca Street Hassle, minuto seis, segundo dois.

Este tipo está a aguentar uma música toda em guitarra e voz. Só um gajo fodido assim é que conseguia.

“‘But when someone turns that blue / well, it’s a universal truth / and then you just know that bitch will never fuck again”

Ninguém diz ‘fuck’ assim. Ninguém diz ‘fuck’ como ele. É um ‘fuck’ mesmo fodido. E agora entra o baixo. Este baixo também é fodido. Fodido ‘as fuck’. Simplesmente fodido.

Uma mulher de quarenta e sete anos — idade calculada segundo o sentido crítico de vinte e oito anos de John (data em que saiu do ventre de sua Mãe) — uma mulher de quarenta e sete anos acaba de derrapar com o carro em pleno eixo norte-sul. Conseguiu capotar um Ford Fiesta de dois mil e dois, amarelo. Está fisicamente imaculada, embora aparente alguma irritação pelo sucedido.

Ninguém compra carros amarelos de marca americana. Simplesmente, não se faz.

Toca o telemóvel. Toque polifónico “arrebita”. É Marta.

“Estou estou?”

“Já saíste?”

“Uma mulher capotou um Ford amarelo no eixo norte-sul. Nada de grave, mas montou aqui uma confusão que oh lá lá.”

“Isso é mau. Bem te disse que devias ter saído mais cedo.”

“A reunião é amanhã. Não percebo porque é que tive de vir hoje.”

“O Dr. Correia é assim. Gosta que toda a gente faça o que ele manda.”

“E nós fazemos tudo o que o cliente paga. Escrevi já na folha de horas: ‘Domingo, 43 minutos de trânsito’.  Faço questão de que a conta lhe saia choruda.”

“Estás bem?”

“Morreu o Lou Reed, como é que se pode estar bem? Mas porra, está um dia lindo. Podíamos ter almoçado e tudo, naquele italiano de que tanto gostas.”

“John…”

“Claro que agora já não gostas porque és associada e quando chegas a associada tens de gostar de outras coisas. Como é que dizes? ‘É uma nova fase.'”

“John…”

“Ascensões meteóricas. Sempre gostei delas. São fenómenos interessantes. Infelizmente sou demasiado terreno e pouco cínico para ser alvo das mesmas. A natureza deste mundo não quer nada comigo.”

“Adoro quando entras nesses teus discursos cheios de humor.”

“Também gostava quando vinhas lá a casa rir-te deles.”

“John… estás bem?”

John desliga o rádio do carro. Acha melhor, para não enaltecer nenhuma espécie de drama neste momento.

“Qual é o nome do sítio? Hotel do Vigário?”

“Do Vidago.”

“Ao pé de Chaves.”

“Sim. Conhecendo-te, estás só a fugir da conversa. Sabes perfeitamente o caminho e as horas e o sítio onde tens de estar. Sei que sabes.”

“Morreu o Lou Reed. Já não sei o que sei.”

“Sabes me dizer se estás bem?”

Os carros em movimento. Uma onda metálica de carburadores a sair de Lisboa. A placa que diz A1. John suspira.

“Estou óptimo, melhor do que nunca. Mandam-me num Domingo de manhã para o meio dos quintos do mundo fechar um contrato do qual só ouvi falar há dois dias. Dão-me um mandato sem margem para brincadeiras, transferem-me uns trocos para as despesas, e marcam-me hotel por duas noites. Não há negociação possível, é assinar e voltar. Um miúdo de cinco anos, se conduzisse, podia fazer o mesmo.”

“É um contrato importante, dum cliente importante.”

“… E o melhor disto tudo é que é um contrato importante dum cliente importante, coisa que o patrão nunca me dá para fazer mas que se lembrou, por via não sei de que santo, em me passar para a mão às duas da tarde dum Domingo esplêndido. Ligou-me muito educamente, perguntou até se me estava a interromper e tratou-me pelo primeiro nome. ‘Jóne’, com aquela entoaçãozinha dele. Disse que gostava muito do meu trabalho, que o Santos de ‘corporate’ estava sempre a falar de mim, e que eu era o tipo ideal para tratar deste problema. Foi tão, mas tão simpático que nem sequer tive coragem para lhe dizer que trabalho em contencioso e não ‘corporate’, que não conheço o Santos, de que está um dia lindo de sol lá fora, de que sinto a tua falta, e de que a última coisa que me apetecia naquele preciso momento era receber uma chamada dele. E agora aqui estou.”

“Devias ver isto como uma oportunidade. Ele está a ver se pode contar contigo, se és bom o suficiente para ficar no escritório ou não. E tu, que sabes que é o melhor de todos nós, não o vais deixar ficar mal numa coisa tão pequena e fácil.”

“Escusas de me tentar enganar, sei que não é assim. Há um mês que não tenho nada para fazer no escritório. Chego, bebo café, leio os jornais, fico a pensar na morte da bezerra durante oito horas e vou para casa. Soube pela Lúcia que me vão dizer qualquer coisa esta semana sobre se fico ou não. Lembras-te do Edgar? Fizeram-lhe o mesmo, tal e qual. Passa na ordem, trabalha um ano, um mês sem fazer puto, fala com a Lúcia, ouve dizer que na próxima semana sabe se sim ou sopas, e de repente rua. Não é preciso pensar muito para ver o que me espera.”

“Não sabes. Estás a exagerar.”

“Foste tu que lhe disseste para me dar isto?”

Encosta na berma. Consegue sentir, no meio do barulho de estrada e do diminuto som do rádio, naquele momento, uma pequena hesitação do outro lado da linha.

“John, porque é que achas isso?”

“Diz-me lá. Foi o teu coração mole que teve pena deste pobre advogado e pediu ao patrão, com esse teu novo jeito de associada, para dar uma primeira e última oportunidade aqui ao mestre do contencioso, o rei da barra, antes de o mandar embora?”

“Não estás a ter graça.”

“Às vezes não quero ter.”

“John, pára com isso, e diz-me como estás, por favor.”

“Foste ou não foste?”

“John…”

Uma vez disseram-lhe que a esperança média de vida duma pessoa na berma duma auto-estrada é de vinte e cinco minutos. Sempre pensou se os valores eram os correctos. Acha que foram arredondados. De certeza que foram arredondados.  A média não pode dar vinte e cinco. Tem de ser uma coisa mais solta. As pessoas gostam de números certos, fáceis de usar. Ele gosta dos números tal como são, o que é visto como uma rara qualidade, hoje em dia. Há quem até lhe chame manias, mas ele está-se a borrifar para isso. As coisas são o que são. Um carro pára à sua frente. O condutor (trinta e quatro, talvez três, anos) abre a porta e sai, em direcção à sua viatura, mas John faz-lhe sinal para se pirar.

Está tudo bem pá, vai-te embora. Estou parado na berma com os quatro piscas mas está tudo bem, meu grandessíssimo filho-da-puta. Vai para o raio que ta parta com a tua preocupação e deixa-me em paz. Não se passa nada. Estou a falar ao telefone com a miúda dos meus sonhos, que já não me liga meia e estou a tentar controlar-me para não me armar em parvo. É simples, percebes? Vai, isso, segue viagem. Isso, acelera e baza. Está tudo bem, sim, sinal de óquei. Podes ir? Obrigado. Adeus. Baza.

“John?”

Aquele tom preocupado e irresistível. Pensa que ela ainda o sente de alguma forma. Mas o que é que pode fazer, dadas as circunstâncias, senão tremer, desiludido com a sorte?

“John, estás aí?”

“Morreu o Lou Reed. Não é trágico, de alguma forma? O Lou Reed. O rei dos reis. Um tipo fodido, o mais fodido de todos. Isto afecta-me, sinceramente. Ainda para mais está um bom Domingo. Se ainda gostasses de andar de bicicleta podíamos ir para ao pé do rio. Ia-te buscar a casa e pagava-te o almoço. Dizia-te duas ou três piadas pelo meio. Fechava a porta do carro e declamava-te o ‘Perfect Day’ com voz de estrela. Podíamos fazer elegias em casa durante a noite, escrever um obituário com todos os exageros e mais alguns, como se o conhecêssemos há anos. Não sei. São várias as possibilidades que tenho na cabeça. Desculpa, sei que te estás a foder para elas. Vou desligar.”

“Ouve…”

“Tenho de ir senão atraso-me. Já perdi bastantes minutos com esta brincadeira. Só querias saber se eu estava bem e a caminho, não é? Obrigado pela preocupação. Não estou bem e estou a caminho. Quanto a esta — como é que disseste? — ‘oportunidade’…

“John…”

“… Foi uma boa ideia. Mas sabes que não serve de nada. Não há volta a dar. Esta semana vou para a rua. É simples.”

O suspiro dela, estranhamente imediato. É preciso rematar a conversa.

“Vemo-nos terça-feira Marta. Adeus.”

O carro volta para a faixa principal. Num filme trágico as nuvens começariam a fechar o céu, e uma chuva redentora abater-se-ia sobre o herói. Mas nesta auto-estrada nacional número um abate-se um melancólico pôr-do-sol, extremamente rosado e aberto, próprio do belo dia que findou. John nem lhe deu espaço para responder, carregando no “desligar” mal proferiu o adeus. Pareceu-lhe sincera, a atitude dela. Só estava a tentar o seu melhor. O problema é que às vezes o melhor não basta, está tabelado por baixo. O que se deve fazer nestas alturas é voltar aos números. É nisso que John tenta pensar. Volta a ligar o rádio e põe a música nos cinco minutos e treze e continua a conduzir.

Lou Reed morreu. Foda-se. 

Tem de estar no Vidago até à meia-noite.