O Mandatário (Capítulo 6)

Primeiro

Alô, Marta.

Já tenho as assinaturas.

Volto daqui a nada para baixo.

Quando chegar jantamos?

Quando puderes diz qualquer coisa.

Tenho notícias que não vais acreditar.

.

..

Beijo.

– Fim da mensagem.

 

Segundo

Bem segura nas duas mãos. Da direita passa sempre primeiro pela frente, sem nunca largá-la na esquerda. Do cruzamento é atirá-la para trás e torná-la para a frente. Mais uma volta e é trazê-la de trás para a frente por entre a volta dada. Ajusta-se o nó com firmeza, deixando margem para respirar, e garante-se a ponta ao nível do cinto. Movimentos firmes mas suaves.

John não usa gravatas, regra geral, mas conhece a fórmula certa. Ficou-lhe o jeito das quantas solenidades frequentadas, dos casamentos dos outros à cerimónia que o Direito por vezes obriga. Mas não é só de agora, quando jovem também fora ensinado da beleza dos preceitos e não lhe era estranho o protocolo. Em boa verdade até o aprecia – fosse o casamento tão claro, tão certo. Alguns passos e tudo exacto na certeza do aprumo. Será antes um desarranjo e com isso posso eu bem. Também ela.

Afastam-se os demais para que o noivo se ajeite.

O nó. Agarra-se ao volume que lhe prende o pescoço e acomoda-o em jeitos que não se fazem entender. Fica tudo na mesma.

Uma palmada nas costas e vários sorrisos confiantes.

Por instantes sozinho.

Lá fora estão todos. Ela estará também não tarda.

Os grandes momentos fazem-se da comparência.

John assegura-se ao espelho. Estou mesmo aqui. Está na hora.

 

Terceiro

Volta para dentro.

Não é possível, o tempo passou sem que desse conta.

A tarde caíra entornada pela sombra das casas mas só os adultos compreendem o derrame. O relógio da mocidade não se dá ao contínuo, tem ponteiros discretos e faz saltos impensáveis. Com o escurecer marcou a hora certa do fim e o vento apareceu para varrê-los dali. Aterrar neste presente é testemunhar a viagem no tempo. John brincava na correria ainda agora mesmo. Agora mesmo. Parado, o suor trazia-lhe o frio. Cada um voltava para sua casa. Que amanhã haja mais. Que amanhã o sol finte os muros. O regresso é para todos um caminho de sonhos.

 

Final

A conversa foi breve. O Dr. Correia tem um plano e os planos do Dr. Correia são sempre de fiar. John faz parte do plano e gostou do que ouviu.

Despojado à secretária, recostado no cadeirão, o Dr. Correia encheu-o de palavras evidentes. Falou-lhe do passado e do que há-de vir. De vitórias, derrotas, de pessoas e do lugar delas em tudo isso. Lançou hipóteses, tantas certezas e outras sugestões. No entretanto, a sua caneta, ponta ao ar, todo o tempo a pairar dançante as folhas. Um voo rasante e hipnótico em movimentos bruscos agitados pelo discurso triunfal. O braço ritmado pela cadência do palavreio e as folhas à sua espera – assinar aqui. O momento era dele e a demora do mandatário. Estavam sós, os dois apenas desde o começo, não se importa de sair, Carla? Era a Carla a mulher-silêncio. A mandatária recebeu-o e deixou-os estar, era a sua parte. Para o Dr. Correia todos têm um papel, uma função. Cabe-lhe a ele concertá-la num ensemble maior que a soma das partes. Um maestro, digamos, dizia-se sem cuidar à vaidade.

O mandatário escutava tudo isto silencioso e resumia-o para si – qualquer dia faço parte da orquestra. Tentava não descurar a concentração no monólogo do interlocutor mas desviava-se a espaços à janela que o afrontava. Nas costas do Dr. Correia o resto do mundo lá fora. Parecia que assim se dispusera com esse mesmo propósito. Nada no assinante seria do acaso e muito menos o lugar do seu ofício. O homem que tem um lugar para as pessoas também o terá para as coisas.

Perdeu-o por instantes.

Riu-se do que dissera e com um soco na mesa devolveu o mandatário à atenção.

Ficamos assim então, vamos lá assinar isto.

Virou-se aos papéis e focou-se à caneta. Vincou em força que não saía tinta. Mais uma vez e foi desta. O mandatário tem as assinaturas. O mandatário tem muito mais que as assinaturas. Missão cumprida, uma de tantas.

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O Mandatário (Capítulo 4)

Não se ouviu mais a sua voz. John nem cuida lembrar do seu nome expelido dos lábios rubros, tal a brevidade do som e o espanto do silêncio depois perpetuado. A mulher encosta-se ao balcão e debruça-se até cruzar a atenção do servente ao bar. De cabeça ligeiramente inclinada sorri e desbloqueia o aprumado homem estátua que lhe prepara então, mecanicamente, um bourbon daisy.

Whisky americano tipo bourbon

Xarope de groselha

Sumo natural de limão

Açúcar

A mescla é homogeneizada em gelo. No entretanto da preparação, o silêncio reina atento aos passos da mistura líquida. No copo uma rodela de limão enfeita o cocktail e a mulher anui satisfeita. Girando a bebida, procura a cadeira de pé alto onde se apoia sem tirar os olhos do copo. Dá um gole e passa a língua entre os lábios. E ali John, a seu lado, silencioso também, de procurado a ignorado. Sentia-se envolvido num momento, numa situação a dois, mas ao mesmo tempo não compreendia o seu papel. Como se a luz do bar, palco da vida, incidisse somente sobre a dupla de desconhecidos e o herói espectador sentisse um desconforto angustiante pelo herói actor, uma mesma pessoa. Ela pergunta por ele, ele confirma a identidade e depois nada.

São vinte e duas horas e um minuto. Está na hora de entrar em cena. Acção.

“Foi você?”

John larga o bilhete ao bar. A mulher hirta sobre os cotovelos no balcão, dedos entrelaçados, desloca um olhar de soslaio sobre o papel. Devolve a atenção ao copo entre os braços e inclina a cabeça para trás. John não percebe linguagem corporal, não percebe silêncio, não percebe nada. A mulher loira do vestido verde não atende a sua interpelação. Com o bater das pulseiras revolve a mala ao colo procurando qualquer coisa. Solta um esgar de impaciência pela demora no achado, mas à descoberta a sua expressão retoma a calma desconcertante. Coloca um papel branco sobre o balcão e fitando o seu vazio chega o achado ao queixo, uma parker de mola. Pressiona-a e leva-a ao papel.

Isto é um teste.

O Dr. Correia não esquece.

O avião pousa a caneta e arrasta o papel na direção do ignorado, parando, sem descolar a mão. Espera a leitura do herói e conduz o papel de novo para si. Em momento nenhum trocaram o olhar, o foco é nas letras.

Um teste? Mas que merda é esta?

O Dr. Correia não esquece? Como assim?  

John, sobressaltado com a estranheza, engelha a face. Não consegue escolher palavras para as dúvidas. O absurdo toma as rédeas da noite mas o mandatário dispara.

“Oiça, vai-me dizer quem é e o que quer de mim. Eu não estou aqui para bilhetes e bilhetinhos. Percebo que vem da parte do Dr. Correia.”

 Sem pestanejar a mulher escutou-o nos olhos. John sentiu inclusive um certo embaraço ao ser fixado com tamanha firmeza. As suas palavras tiveram a segurança que o álcool permitia. Não, a mulher não proferiu uma única palavra. O seu cocktail molhou-lhe os lábios. John continuou.

“Isto é surreal, não me responde? Você é que me aborda e agora não fala? Vamos parar com esta brincadeira e esclarecer isto de uma vez por todas.”

Ela pega na caneta. Ele barafusta. Que não faz sentido, que veio de Lisboa para recolher assinaturas, que não está para isto. Ela abana ligeiramente a cabeça oblíqua ao papel e tem o tique de mexer os lábios enquanto redige. John fala para uma mulher que fala para um papel. A mulher termina a mensagem e John termina o monólogo, simultaneamente. Caneta sobre a mesa. Papel arrastado. O jazz da sala.

A seu tempo.

Queria confirmar que vinha.

O Dr. Correia só confia em quem se dispõe.

De lado, recostado, cotovelo ao balcão segurando a testa na ponta dos dedos, John vê-a recolher o papel mais uma vez. Acompanha o afastamento até ela parar mas os seus olhos seguem a mão braço acima, ombro descoberto, cabelos loiros e olhos verdes. Aí ficam num instante confuso.

Olha a minha vida. Disto não nos ensinam no curso de Direito.

Introdução ao Mistério I

Bilhetes avançados III – cifras e jogos de palavras

História dos encontros surreais

Enfim.

Que raio, o Dr. Correia só confia em quem se dispõe?

E ela não fala! Porquê?

Só a mim.

John termina o seu whisky de um trago só, serra os dentes e amarrota involuntariamente a cara. Respira o ardor da bebida, insufla-se e despeja.

“Olhe, isto não me está a fazer sentido nenhum, eu vou-me embora.”

Ele continua, ela escreve.

“O Dr. Correia tem o meu número com certeza; ou facilmente saberá onde me encontrar. Foi um prazer conhecê-la.”

A mulher não lhe dá tempo de se levantar por completo. Lança nova mensagem na sua direção e prende-a ao balcão com o indicador. Dois toques no papel.

O escritório será seu.

O quê?

A mandatária travou o mandatário. Deteve-o no papel e no olhar. A mulher sorri-lhe e ele não entende. Gelou entre as letras e a inocência do sorriso. Ela recolheu o papel e escreveu-lhe uma pequena nota, uma morada seguida de um número de telefone. Nas costas acrescentou uma hora do dia seguinte. John pegou no recado e imobilizou-se admirado. A mulher agia com uma naturalidade assustadora, o secretismo do silêncio, o papel, a sua beleza, o espanto do herói, tudo se lhe fazia parecer trivial. John esforçava-se para entender o surrealismo do momento mas o que mais o tomava era o silêncio na palavra falada, porque a escrita é ruído à mesma. Talvez tivesse a ver com a pureza da mensagem. O discurso é afectado da expressão, do tom, de distrações. A palavra escrita é a palavra escrita.

Ou então, nada disto. Ela não quer é ser ouvida ou gravada e a vida é um filme de detectives e espiões. Mas eu tenho a folha. Mas eu não sei o nome dela. Mas.

Em John faz-se o silêncio por fora e por dentro. O contrabaixo preenche o som das colunas do bar e as vassouras do jazz marcam os pratos. São vinte e duas horas e dez minutos. O tempo e a mulher passaram num instante. Findo o cocktail, a mulher do vestido verde vasculha a mala e faz aparecer um pequeno espelho. Segurando-o numa mão, ajeita-se com a outra, procurando os seus ângulos, tudo no sítio. Descola-se então do assento, acena atirando um sorriso de despedida ao mandatário, e marcha marcando a passada cruzada, um salto atrás do outro. John pensa travá-la, pensa segurar-lhe a mão, pensa segui-la, pensa convidá-la, pensa demais. A mulher desaparece de cena e a luz incide somente no mandatário. John não sabe quem ela é e não tem a sua presença senão no papel e na memória. Dobra-o, guarda-o no bolso e aponta-se ao copo vazio sem fazer caso do que vê, está preso às suas ideias. John repara no barman que repara nele.

Ele serviu-a sem palavras, sem bilhetes.

John pensou saber dela junto do homem atrás do balcão. Nada feito, não a conhece além do bourbon daisy. Só a vira no dia anterior quando lhe pedira a mesma bebida num serão passado ao bar.

Claro, já sabia que eu cá estava. Isto não faz sentido nenhum. Amanhã fica resolvido, ai fica, fica.

A Marta continua sem atender. Não há correio na morada virtual do mandatário. Faltam trinta e três minutos para a meia noite e após nova bebida sentado ao balcão, perdido nas ocorrências e introspecção, o pensador do Vidago recolheu ao quarto. O 212 está fresco porque a janela ficou aberta. John fecha-a e corre a cortina. O seu dia acabou.

O Mandatário (Capítulo 2)

“Silva.”

Silêncio perscrutado de olhos no ecrã.

“John Silva.”

O desbloqueio do rosto e um aceno de concordância.

“Sr. John Silva, duas noites, meia pensão?”

Sei lá eu.

“Sim, isso mesmo.”

“Assine aqui e acompanhe-me então.”

São vinte e três horas e trinta minutos no Vidago. A noite tomou conta do resto do dia impondo-se monótona contra a queda do sol. A viagem fez-se guiando, nada de mais. Já no elevador, paralelos, espelho nas costas.

“O que o trouxe cá?” (uma simpatia)

“O meu carro.” (uma besta)

O cansaço apura o sarcasmo. John desfere um sorriso feio para amenizar o retorno ao silêncio, não é hora de conversas. Pling, abre-se a porta. O corredor é de alcatifa escura e infinita. Repetem-se luzes fracas de parede e passos almofadados no contínuo chiar das rodas da mala. Portas: 210,211,212.

“Cá está.”

“Obrigado.”

Luz verde na capicua. Range a porta a custo e fecha-se nas suas costas por força das molas. Luz vermelha.

Que merda de espelunca. Mas a gaja era boa. Um bocado sem sal, mas enfim. Olha, tenho bar.

John pressiona uma luz na televisão e solta-se um estouro de aparelho velho. Barulho vago e assobio de fundo. Os ponteiros ao pulso marcam meia noite certa e vagueando desprende a camisa das calças. Para e desaperta a camisa de frente de uma serigrafia qualquer.

Realmente de que me queixo? Não é assim tão mau. Apesar de caminhar para o nada, de me atirarem ao norte em trabalho, a verdade é que talvez me faça bem sem saber. Não tarda estarei na rua mas não consigo deixar de pensar que possa ser para meu bem. Talvez esta seja a oportunidade de que a Marta me falava, mas ao contrárioQue disparate…Porra Marta, faço sentido sem fazer! Culpa tua. Sei que são passos vãos mas ponho-os em perspectiva. Uma espécie de dead man walking mas com estilo, com um possível proveito, no Vidago, ar puro. Grande filme por sinal. Sean Penn preparado pela Susan Sarandon para a morte anunciada. Uma freira assiste um assassino por provar inequivocamente. Nem matei nem me acompanham, mas a frase é forte – Dead man walking. Como se ao morto concedessem a prazo uma condição dos vivos, caminhar.

John decide deitar-se, amanhã há reunião.

1:00

2:00

3:00

4:00

5:00

6:00

7:00

Oito e meia horas da manhã.

O despertar fica a cargo de uma polifonia de alarme e uma pancada cega cala o telemóvel. A primeira imagem, turva, é o tecto branco. Imóvel, fixa o instante mas o tempo a passar, algures entre a fotografia e o filme. Nasce uma ideia.

O céu não será muito diferente de um despertar branco. A existir. O Lou já saberá.

Logo se esvai. Tem de mijar e lavar-se, corpo e alma. Desce para a sala de refeições e apercebe-se do lugar das coisas. Café para a veia. Está aperaltado por requisito da ocasião e certifica-se que tem consigo os documentos. Rectilíneo, dirige-se à porta por entre um olhar trocado com a moça da recepção, esta acena um bom dia telepático num gesto afável. Sai para a rua e detém-se num suspiro. Traz a morada no bolso, sente o tilintar das chaves e avança para o carro.

Dez horas, vinte e seis minutos, sintonia numa emissora qualquer. Menos um que no mostrador. Uma voz amigável infiltra-se na viatura, vinte e três graus de máxima, dezasseis de mínima, vamos às notícias. Entretanto, percorre a vila.

Nada de novo. O governo. O futebol. Hoje até me parece tudo especialmente insignificante. Parece-me tudo tão distante daqui. Será do tamanho dos edifícios? Da largura das ruas? Como se as notícias do país fossem de Lisboa, para Lisboa. Ou do Porto, para o Porto. Algo vago de mais para os lugares de Portugal. As notícias da metrópole não ralam tanto as vilas porque as vilas se ralam com as suas vidas e basta. Ou não? Foda-se, sou mesmo menino da cidade.

Após o disparo de informações, John liga o auxiliar ao rádio. Suspende-se o contacto radiofónico com o mundo e começa a banda sonora para o que resta do caminho.

1. Tom Waits – Hold on

2. David Bowie – Heroes

Travão de mão. Roda a chave e cala-se a música.

A meio do refrão, não se faz. Bem, será por estas ruas.

Abandona o carro e dá três passos perdido. John, o forasteiro, pede indicações. Ao procurar, observa. Na marcha formula conclusões apressadas, que no Vidago as gentes são diferentes porque as ruas são diferentes, porque as caras são diferentes, porque as vidas são diferentes. Não se ocupa muito mais. Rapidamente encontra o destino. Edifício de esquina, três andares, restaurado. À porta, empurra a campainha do segundo andar. Insiste. Nada. Teima. Nada. Ouve uns passos na entrada e intercepta-os. A porteira, mulher velha, não sabe de quem procura.

“Não senhor, está enganado. Não conheço cá nada disso.”

Morada errada, queres ver? Só me fodem. Ainda por cima não tenho o número dos gajos.

Sem morada não há cliente. Sem cliente não há assinatura e sem assinatura não há contrato. Há céu limpo e o que resta do fresco da manhã. Não fosse o insólito seria um dia de apreciar. É hora do almoço e o Dr. Correia não atende. Com certeza mais uma tarde regada num qualquer reserva, o doutor agora não pode, está em reunião. Seria a deixa do costume atendessem do escritório. Nada feito. Um homem, uma missão, uma vila e uma contrariedade. A porteira apoia-se na esfregona observando-o de lá para cá. Tenta uma nova chamada mas o número que marcou não se encontra disponível. Fita o fim da rua mas não quer saber do que vê, está preso às suas hipóteses.

Estou bonito. Agora o que é que eu faço? Vou ligar à Marta.

A Marta não atende. Deixa-lhe uma mensagem de voz e reforça com uma de texto. Logo que puderes, liga-me, é urgente. Mão direita no bolso das calças, torna ao carro mas não leva a chave à porta. Decide passear. Procura um lugar qualquer para comer uma coisa qualquer. É bom garfo mas está inquieto. Enche-se do prato do dia sem grandes exigências. Já ouvira falar da igreja de Nossa Senhora da Conceição e das termas do Vidago, mas nunca lá fora. Pondera essa hipótese mas logo reprime o devaneio. John Silva, o mandatário, tem que fazer. Limpa os beiços e abala. Continuam sem resposta as telecomunicações e vagueia até ao carro. O Vidago revela-se e a tarde invade lentamente. O sol inclinado projecta sombras nas pessoas e nas coisas. As ruas não são as mesmas da manhã. São quinze horas e doze minutos. Tranca-se no carro e devolve-se ao hotel. Antes de arrancar ainda pasmou ao ralenti. Depois, seguiu silencioso, rádio e cabeça.

 “Diga-me uma coisa, alguém ligou para mim? John Silva.”

“Não senhor, não tenho aqui qualquer indicação disso.”

Foi uma hipótese que lhe surgiu no meio de tantas. John dirige-se aos sofás do lobby e enterra-se no primeiro que encontra. Aí, acede ao correio electrónico no seu telemóvel através da rede do hotel. Luz azul na cara. Ninguém escreve ao mandatário. O mandatário escreve a todos. Envie-me o contacto do cliente, não me consegui reunir com ele. Ligue-me assim que puder. Enviar. Seguindo um grupo de estrangeiros então chegados, encaixa-se no elevador e ascende ao quarto. 212, empurrão na porta e estranheza ao segundo passo. A porta fecha-se e John dobra-se. Está um bilhete deixado ao chão. Bar, 22 horas. Mais nada. Não tem nome, não tem verbos. São dezasseis horas e meia e as paredes estão alaranjadas. Arruma a pasta a um canto e senta-se aos pés da cama. Nada no telemóvel. Descalço, ruma ao espelho por uma comichão num olho. Recosta-se à cama e divaga por dentro. Pensamentos difusos, meias ideias, um novelo de raciocínios em ruído absoluto. O contracto e o bilhete.

John sente-se atrapalhado, não decifra o bilhete. Mas as instruções são claras.