O Mandatário (Capítulo 5)

De repente, começa a chover.
A imagem do jardim, parcamente iluminado. Discernem-se os largos troncos das muitas árvores que povoam o terreno castanho, pouco esverdeado. A água cai sobre os ramos e as folhas, de forma carregada.
A água também caía de forma carregada naquela noite. John sabe que não se passaram ainda mais do que setenta e quatro horas e sete minutos sobre esse momento. É normal que esteja presente, de forma clara e arrebatadora. Foi um momento simples, isolado. A chuva caía e John estava em casa, e, tal como agora, encontrava-se junto à janela. Não havia jardim, mas uma rua; nada de árvores, só casas  lisboetas. Ouvia-se o som das gotas nas viaturas. Tal como hoje, nada de vento.
Uma das coisas de que Marta mais gosta é o Inverno. O frio na rua e o quente da casa. A estrutura das mantas, dos chás, dos scones e bolachas feitos no forno. Das séries românticas que dão na televisão, da moleza que invade os corpos. O frio lá fora, e o calor cá dentro.
John nunca gostou do Inverno. Considera que é impossível alguém gostar de uma estação em que a temperatura é inferior a dezanove graus celsius (John diz que dos dezanove para os vinte graus a diferença é imensa). O frio faz-lhe confusão, física e emocional. Sempre que o Inverno chega, John hiberna para o quarto de casa, assolado por uma falta de vontade extrema para a vida. Apenas a rádio, os livros de filosofia política e os jogos da Liga Inglesa de futebol ao fim-de-semana o conseguem entreter.
Marta mudou isso. Tirou o jovem mandatário da toca, obrigando-o a viver os dias de frio de outra forma. Chegava cedo a casa de Smith, partilhando com ele o seu prazer por esta temporada estival. Tudo com muito tacto, muito carinho, muita paciência. E muita simpatia. Aos poucos, John viu-se encantado por aquela rotina de fim-de-semana, que ambos começaram a prolongar para as noites depois do trabalho. Falavam, riam-se, troçavam um do outro, e aconchegavam-se debaixo de uma velha manta de Marta. Nada de mais, mas incrivelmente bom. Incrivelmente caloroso.
A chuva começa a cair com mais força. As folhas começam a cair dos ramos. Sobre as luzes do jardim, folhas grandes e verdes de figueira, a tapar a terra.
Vem-lhe à cabeça a mulher-avião. Houve uma vez que Marta se vestiu assim, só para ele. John tinha-lhe dado a chave no escritório, disse que ia só acabar uma peça e depois seguiria, para ele ir andando e ir fazendo os scones. Quando chegou a casa, Marta abriu-lhe a porta, vestida com uns sapatos de tacão alto, fino; um vestido justo, vermelho; dois anéis, no anelar e no médio; um colar de pérolas e um baton mais escuro. John nunca a tinha visto como a estava a ver naquele momento, arrasadora. Marta pegou-lhe pela mão e levou-o até à mesa da sala, onde um jantar simpático os esperava. Em vez de chá serviu-lhe vinho. Aos scones, juntou compota. E por fim, pegando-lhe na mão, levou-o para o quarto, onde a manta cobria o colchão.
Marta, a ternura tornada viva, a pachorrenta entusiasta invernal transformada em mulher.
John afasta a imagem. Tinha feito o mesmo há três dias atrás. Na altura, pensou em abrir a janela, colocar a cabeça de fora e ficar assim, por cerca de trinta e sete minutos (mais segundo, menos segundo), a apanhar com a chuva na cabeça. Resolveu sentar-se, no sofá, e depois cair, deitando-se como pudesse. Sentiu o frio da noite na pele, mas não procurou cobrir-se. Nada de mantas. Nada de Marta.
Na rádio ouvia-se uma balada. Não há nada pior numa noite de merda do que começar a ouvir uma balada pensou John. A rádio alternativa que costumava ouvir pôs a passar Blue, da norte-americana Waxatahatchee. Um daqueles discos que John adorou à primeira e que sabia — e que sabe — que Marta nunca gostaria. E, no entanto, é como se ela ali estivesse: aquela memória que vive como espaço demasiado presente, demasiado intenso para se suportar. Não há tempo que o valha.
John abre a janela e coloca a cabeça de fora. Deixa-se ficar, sem marcar tempo, ali. Sente a água na raiz dos cabelos, descendo pelo pescoço, atrás das orelhas. Estes dias não estão a ser nada fáceis, pensa John. O Vidago não está a ser nada fácil, John.
E de repente, a chuva pára.

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