O Mandatário (Capítulo 2)

“Silva.”

Silêncio perscrutado de olhos no ecrã.

“John Silva.”

O desbloqueio do rosto e um aceno de concordância.

“Sr. John Silva, duas noites, meia pensão?”

Sei lá eu.

“Sim, isso mesmo.”

“Assine aqui e acompanhe-me então.”

São vinte e três horas e trinta minutos no Vidago. A noite tomou conta do resto do dia impondo-se monótona contra a queda do sol. A viagem fez-se guiando, nada de mais. Já no elevador, paralelos, espelho nas costas.

“O que o trouxe cá?” (uma simpatia)

“O meu carro.” (uma besta)

O cansaço apura o sarcasmo. John desfere um sorriso feio para amenizar o retorno ao silêncio, não é hora de conversas. Pling, abre-se a porta. O corredor é de alcatifa escura e infinita. Repetem-se luzes fracas de parede e passos almofadados no contínuo chiar das rodas da mala. Portas: 210,211,212.

“Cá está.”

“Obrigado.”

Luz verde na capicua. Range a porta a custo e fecha-se nas suas costas por força das molas. Luz vermelha.

Que merda de espelunca. Mas a gaja era boa. Um bocado sem sal, mas enfim. Olha, tenho bar.

John pressiona uma luz na televisão e solta-se um estouro de aparelho velho. Barulho vago e assobio de fundo. Os ponteiros ao pulso marcam meia noite certa e vagueando desprende a camisa das calças. Para e desaperta a camisa de frente de uma serigrafia qualquer.

Realmente de que me queixo? Não é assim tão mau. Apesar de caminhar para o nada, de me atirarem ao norte em trabalho, a verdade é que talvez me faça bem sem saber. Não tarda estarei na rua mas não consigo deixar de pensar que possa ser para meu bem. Talvez esta seja a oportunidade de que a Marta me falava, mas ao contrárioQue disparate…Porra Marta, faço sentido sem fazer! Culpa tua. Sei que são passos vãos mas ponho-os em perspectiva. Uma espécie de dead man walking mas com estilo, com um possível proveito, no Vidago, ar puro. Grande filme por sinal. Sean Penn preparado pela Susan Sarandon para a morte anunciada. Uma freira assiste um assassino por provar inequivocamente. Nem matei nem me acompanham, mas a frase é forte – Dead man walking. Como se ao morto concedessem a prazo uma condição dos vivos, caminhar.

John decide deitar-se, amanhã há reunião.

1:00

2:00

3:00

4:00

5:00

6:00

7:00

Oito e meia horas da manhã.

O despertar fica a cargo de uma polifonia de alarme e uma pancada cega cala o telemóvel. A primeira imagem, turva, é o tecto branco. Imóvel, fixa o instante mas o tempo a passar, algures entre a fotografia e o filme. Nasce uma ideia.

O céu não será muito diferente de um despertar branco. A existir. O Lou já saberá.

Logo se esvai. Tem de mijar e lavar-se, corpo e alma. Desce para a sala de refeições e apercebe-se do lugar das coisas. Café para a veia. Está aperaltado por requisito da ocasião e certifica-se que tem consigo os documentos. Rectilíneo, dirige-se à porta por entre um olhar trocado com a moça da recepção, esta acena um bom dia telepático num gesto afável. Sai para a rua e detém-se num suspiro. Traz a morada no bolso, sente o tilintar das chaves e avança para o carro.

Dez horas, vinte e seis minutos, sintonia numa emissora qualquer. Menos um que no mostrador. Uma voz amigável infiltra-se na viatura, vinte e três graus de máxima, dezasseis de mínima, vamos às notícias. Entretanto, percorre a vila.

Nada de novo. O governo. O futebol. Hoje até me parece tudo especialmente insignificante. Parece-me tudo tão distante daqui. Será do tamanho dos edifícios? Da largura das ruas? Como se as notícias do país fossem de Lisboa, para Lisboa. Ou do Porto, para o Porto. Algo vago de mais para os lugares de Portugal. As notícias da metrópole não ralam tanto as vilas porque as vilas se ralam com as suas vidas e basta. Ou não? Foda-se, sou mesmo menino da cidade.

Após o disparo de informações, John liga o auxiliar ao rádio. Suspende-se o contacto radiofónico com o mundo e começa a banda sonora para o que resta do caminho.

1. Tom Waits – Hold on

2. David Bowie – Heroes

Travão de mão. Roda a chave e cala-se a música.

A meio do refrão, não se faz. Bem, será por estas ruas.

Abandona o carro e dá três passos perdido. John, o forasteiro, pede indicações. Ao procurar, observa. Na marcha formula conclusões apressadas, que no Vidago as gentes são diferentes porque as ruas são diferentes, porque as caras são diferentes, porque as vidas são diferentes. Não se ocupa muito mais. Rapidamente encontra o destino. Edifício de esquina, três andares, restaurado. À porta, empurra a campainha do segundo andar. Insiste. Nada. Teima. Nada. Ouve uns passos na entrada e intercepta-os. A porteira, mulher velha, não sabe de quem procura.

“Não senhor, está enganado. Não conheço cá nada disso.”

Morada errada, queres ver? Só me fodem. Ainda por cima não tenho o número dos gajos.

Sem morada não há cliente. Sem cliente não há assinatura e sem assinatura não há contrato. Há céu limpo e o que resta do fresco da manhã. Não fosse o insólito seria um dia de apreciar. É hora do almoço e o Dr. Correia não atende. Com certeza mais uma tarde regada num qualquer reserva, o doutor agora não pode, está em reunião. Seria a deixa do costume atendessem do escritório. Nada feito. Um homem, uma missão, uma vila e uma contrariedade. A porteira apoia-se na esfregona observando-o de lá para cá. Tenta uma nova chamada mas o número que marcou não se encontra disponível. Fita o fim da rua mas não quer saber do que vê, está preso às suas hipóteses.

Estou bonito. Agora o que é que eu faço? Vou ligar à Marta.

A Marta não atende. Deixa-lhe uma mensagem de voz e reforça com uma de texto. Logo que puderes, liga-me, é urgente. Mão direita no bolso das calças, torna ao carro mas não leva a chave à porta. Decide passear. Procura um lugar qualquer para comer uma coisa qualquer. É bom garfo mas está inquieto. Enche-se do prato do dia sem grandes exigências. Já ouvira falar da igreja de Nossa Senhora da Conceição e das termas do Vidago, mas nunca lá fora. Pondera essa hipótese mas logo reprime o devaneio. John Silva, o mandatário, tem que fazer. Limpa os beiços e abala. Continuam sem resposta as telecomunicações e vagueia até ao carro. O Vidago revela-se e a tarde invade lentamente. O sol inclinado projecta sombras nas pessoas e nas coisas. As ruas não são as mesmas da manhã. São quinze horas e doze minutos. Tranca-se no carro e devolve-se ao hotel. Antes de arrancar ainda pasmou ao ralenti. Depois, seguiu silencioso, rádio e cabeça.

 “Diga-me uma coisa, alguém ligou para mim? John Silva.”

“Não senhor, não tenho aqui qualquer indicação disso.”

Foi uma hipótese que lhe surgiu no meio de tantas. John dirige-se aos sofás do lobby e enterra-se no primeiro que encontra. Aí, acede ao correio electrónico no seu telemóvel através da rede do hotel. Luz azul na cara. Ninguém escreve ao mandatário. O mandatário escreve a todos. Envie-me o contacto do cliente, não me consegui reunir com ele. Ligue-me assim que puder. Enviar. Seguindo um grupo de estrangeiros então chegados, encaixa-se no elevador e ascende ao quarto. 212, empurrão na porta e estranheza ao segundo passo. A porta fecha-se e John dobra-se. Está um bilhete deixado ao chão. Bar, 22 horas. Mais nada. Não tem nome, não tem verbos. São dezasseis horas e meia e as paredes estão alaranjadas. Arruma a pasta a um canto e senta-se aos pés da cama. Nada no telemóvel. Descalço, ruma ao espelho por uma comichão num olho. Recosta-se à cama e divaga por dentro. Pensamentos difusos, meias ideias, um novelo de raciocínios em ruído absoluto. O contracto e o bilhete.

John sente-se atrapalhado, não decifra o bilhete. Mas as instruções são claras.

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