O Mandatário (Capítulo 4)

Não se ouviu mais a sua voz. John nem cuida lembrar do seu nome expelido dos lábios rubros, tal a brevidade do som e o espanto do silêncio depois perpetuado. A mulher encosta-se ao balcão e debruça-se até cruzar a atenção do servente ao bar. De cabeça ligeiramente inclinada sorri e desbloqueia o aprumado homem estátua que lhe prepara então, mecanicamente, um bourbon daisy.

Whisky americano tipo bourbon

Xarope de groselha

Sumo natural de limão

Açúcar

A mescla é homogeneizada em gelo. No entretanto da preparação, o silêncio reina atento aos passos da mistura líquida. No copo uma rodela de limão enfeita o cocktail e a mulher anui satisfeita. Girando a bebida, procura a cadeira de pé alto onde se apoia sem tirar os olhos do copo. Dá um gole e passa a língua entre os lábios. E ali John, a seu lado, silencioso também, de procurado a ignorado. Sentia-se envolvido num momento, numa situação a dois, mas ao mesmo tempo não compreendia o seu papel. Como se a luz do bar, palco da vida, incidisse somente sobre a dupla de desconhecidos e o herói espectador sentisse um desconforto angustiante pelo herói actor, uma mesma pessoa. Ela pergunta por ele, ele confirma a identidade e depois nada.

São vinte e duas horas e um minuto. Está na hora de entrar em cena. Acção.

“Foi você?”

John larga o bilhete ao bar. A mulher hirta sobre os cotovelos no balcão, dedos entrelaçados, desloca um olhar de soslaio sobre o papel. Devolve a atenção ao copo entre os braços e inclina a cabeça para trás. John não percebe linguagem corporal, não percebe silêncio, não percebe nada. A mulher loira do vestido verde não atende a sua interpelação. Com o bater das pulseiras revolve a mala ao colo procurando qualquer coisa. Solta um esgar de impaciência pela demora no achado, mas à descoberta a sua expressão retoma a calma desconcertante. Coloca um papel branco sobre o balcão e fitando o seu vazio chega o achado ao queixo, uma parker de mola. Pressiona-a e leva-a ao papel.

Isto é um teste.

O Dr. Correia não esquece.

O avião pousa a caneta e arrasta o papel na direção do ignorado, parando, sem descolar a mão. Espera a leitura do herói e conduz o papel de novo para si. Em momento nenhum trocaram o olhar, o foco é nas letras.

Um teste? Mas que merda é esta?

O Dr. Correia não esquece? Como assim?  

John, sobressaltado com a estranheza, engelha a face. Não consegue escolher palavras para as dúvidas. O absurdo toma as rédeas da noite mas o mandatário dispara.

“Oiça, vai-me dizer quem é e o que quer de mim. Eu não estou aqui para bilhetes e bilhetinhos. Percebo que vem da parte do Dr. Correia.”

 Sem pestanejar a mulher escutou-o nos olhos. John sentiu inclusive um certo embaraço ao ser fixado com tamanha firmeza. As suas palavras tiveram a segurança que o álcool permitia. Não, a mulher não proferiu uma única palavra. O seu cocktail molhou-lhe os lábios. John continuou.

“Isto é surreal, não me responde? Você é que me aborda e agora não fala? Vamos parar com esta brincadeira e esclarecer isto de uma vez por todas.”

Ela pega na caneta. Ele barafusta. Que não faz sentido, que veio de Lisboa para recolher assinaturas, que não está para isto. Ela abana ligeiramente a cabeça oblíqua ao papel e tem o tique de mexer os lábios enquanto redige. John fala para uma mulher que fala para um papel. A mulher termina a mensagem e John termina o monólogo, simultaneamente. Caneta sobre a mesa. Papel arrastado. O jazz da sala.

A seu tempo.

Queria confirmar que vinha.

O Dr. Correia só confia em quem se dispõe.

De lado, recostado, cotovelo ao balcão segurando a testa na ponta dos dedos, John vê-a recolher o papel mais uma vez. Acompanha o afastamento até ela parar mas os seus olhos seguem a mão braço acima, ombro descoberto, cabelos loiros e olhos verdes. Aí ficam num instante confuso.

Olha a minha vida. Disto não nos ensinam no curso de Direito.

Introdução ao Mistério I

Bilhetes avançados III – cifras e jogos de palavras

História dos encontros surreais

Enfim.

Que raio, o Dr. Correia só confia em quem se dispõe?

E ela não fala! Porquê?

Só a mim.

John termina o seu whisky de um trago só, serra os dentes e amarrota involuntariamente a cara. Respira o ardor da bebida, insufla-se e despeja.

“Olhe, isto não me está a fazer sentido nenhum, eu vou-me embora.”

Ele continua, ela escreve.

“O Dr. Correia tem o meu número com certeza; ou facilmente saberá onde me encontrar. Foi um prazer conhecê-la.”

A mulher não lhe dá tempo de se levantar por completo. Lança nova mensagem na sua direção e prende-a ao balcão com o indicador. Dois toques no papel.

O escritório será seu.

O quê?

A mandatária travou o mandatário. Deteve-o no papel e no olhar. A mulher sorri-lhe e ele não entende. Gelou entre as letras e a inocência do sorriso. Ela recolheu o papel e escreveu-lhe uma pequena nota, uma morada seguida de um número de telefone. Nas costas acrescentou uma hora do dia seguinte. John pegou no recado e imobilizou-se admirado. A mulher agia com uma naturalidade assustadora, o secretismo do silêncio, o papel, a sua beleza, o espanto do herói, tudo se lhe fazia parecer trivial. John esforçava-se para entender o surrealismo do momento mas o que mais o tomava era o silêncio na palavra falada, porque a escrita é ruído à mesma. Talvez tivesse a ver com a pureza da mensagem. O discurso é afectado da expressão, do tom, de distrações. A palavra escrita é a palavra escrita.

Ou então, nada disto. Ela não quer é ser ouvida ou gravada e a vida é um filme de detectives e espiões. Mas eu tenho a folha. Mas eu não sei o nome dela. Mas.

Em John faz-se o silêncio por fora e por dentro. O contrabaixo preenche o som das colunas do bar e as vassouras do jazz marcam os pratos. São vinte e duas horas e dez minutos. O tempo e a mulher passaram num instante. Findo o cocktail, a mulher do vestido verde vasculha a mala e faz aparecer um pequeno espelho. Segurando-o numa mão, ajeita-se com a outra, procurando os seus ângulos, tudo no sítio. Descola-se então do assento, acena atirando um sorriso de despedida ao mandatário, e marcha marcando a passada cruzada, um salto atrás do outro. John pensa travá-la, pensa segurar-lhe a mão, pensa segui-la, pensa convidá-la, pensa demais. A mulher desaparece de cena e a luz incide somente no mandatário. John não sabe quem ela é e não tem a sua presença senão no papel e na memória. Dobra-o, guarda-o no bolso e aponta-se ao copo vazio sem fazer caso do que vê, está preso às suas ideias. John repara no barman que repara nele.

Ele serviu-a sem palavras, sem bilhetes.

John pensou saber dela junto do homem atrás do balcão. Nada feito, não a conhece além do bourbon daisy. Só a vira no dia anterior quando lhe pedira a mesma bebida num serão passado ao bar.

Claro, já sabia que eu cá estava. Isto não faz sentido nenhum. Amanhã fica resolvido, ai fica, fica.

A Marta continua sem atender. Não há correio na morada virtual do mandatário. Faltam trinta e três minutos para a meia noite e após nova bebida sentado ao balcão, perdido nas ocorrências e introspecção, o pensador do Vidago recolheu ao quarto. O 212 está fresco porque a janela ficou aberta. John fecha-a e corre a cortina. O seu dia acabou.