O Mandatário (Capítulo 3)

“As instruções são claras.”

E depois o comentador cala-se. Só se houve o eco da piscina. É impressionante o espaço sonoro que se cria nesses momentos. A expressão “de cortar à faca” tem uma acutilância atroz. Por uns segundos, enquanto o mergulhador sobe as escadas e se põe, em pose, de costas para a água, com os pés na ponta da prancha, parece que o mundo parou. Um sufoco gritante, uma paisagem em câmara lenta, mas real. O instante que não pára de durar. John pensa o quão doloroso devem ser aqueles segundos para quem salta. Na realidade, objectivamente falando, não é nada. Mas ali, na outra realidade, é a eternidade que se monta. Uma eternidade ansiosa, terrível, mas irónica, porque no fim de contas é finita. E o personagem, um chinês com cara de vinte e um anos e três meses (os asiáticos são difíceis de adivinhar quanto à idade, mas John confia nos seus números) agarra o tempo com o salto, um mortal enrolado e veloz, quase instantâneo, tecnicamente imaculado, concluído numa explosão de água clorificada. Palmas, repetições, números no marcador debaixo.

“Tecnicamente imaculado”, diz a voz impessoal do comentador.

“As instruções são claras” diz John, olhando para o televisor, com o papel na mão. São vinte e uma horas e dois minutos. John não pára de contar.

A noite caiu já há muito. Faz frio no Vidago: os carros estão com os vidros embaciados. John dá mais uma volta ao quarto, a quadragésima-sétima desde que chegou e viu o bilhete. O papel é bom, duro, dum branco raspado. Tem gosto. Quem quer que o tenha deixado tem pinta, sabe o que pretende. John tenta imaginar quem foi, se um homem ou uma mulher, um ganguester de casaco bera ou uma pêga de cueca à mostra. Ou então um simples empregado, com ordens precisas. Como dizia o outro, com “instruções claras”. John já não tem idade para isto. Não tenho idade para isto. Não tem idade para pensar quem lhe deixou bilhetes debaixo da porta, como nos policiais dos anos setenta, ou nas comédias românticas de domingo à tarde da televisão generalista. Não, John não tem idade para charadas e tempos perdidos. É um homem condenado a um fim indesejável. Já passou o tempo da juventude, agora é o tempo da sabedoria. E esta não quer nada com bilhetes debaixo da porta.

Na televisão, prepara-se para entrar o mergulhador canadiano. Dezanove anos e três dias. Cinco, aliás.

Não percebo o que se passa aqui. O mandato não deixa margem para dúvidas: recolher assinaturas, trazê-las de volta. Depois já se sabe, uma entrada nada triunfal em Lisboa, na Braamcamp, com palminhas falsas, olhares cínicos, um ou outro comentário forçado, o último cheque, hasta la vista baby que vou ficar com a tua miúda. Ou seja, simples.

O canadiano tem um ligeiro erro na execução, ao não dobrar os joelhos de forma adequada quando realiza o segundo mortal. A repetição é inatacável, não lhe justificando os protestos pela décima a menos que teve em relação ao chinês. É preciso saber perder, também. É preciso levar o contrato para ele ser assinado. Fazem o mandato num domingo, para que tudo aconteça na segunda. Mas o local não existe, um dos assinantes não atende, os chefes também não. Tento ligar vinte e quatro vezes, mas nada. O mandatário está por sua conta. Regressa-se ao hotel e há um bilhete, escrito num bom papel. Bar, vinte e duas horas. O comentador diz que o canadiano precisa de ter paciência, pois as instruções são claras: os joelhos não se podem dobrar. Preciso duma bebida.

O mini-bar só tem água das termas do Vidago. John amaldiçoa, neste momento, todos as tentativas de promoção regional que estão agora muito em voga, e que, apesar de legítimas e benéficas para a economia da zona e, consequentemente, do país, o privam do prazer alcóolico que necessita urgentemente, por cautela de sanidade. Liga para o serviço de quartos e pede uma aguardente.

“Qual, senhor Silva?”

“Qualquer uma, pode até ser da zona. Aliás, tem de ser da zona. Sabe, para apoiar a economia local.”

“Muito bem. Relembro-lhe que não paga nada, Sr. Silva, está tudo incluído na conta.”

“Mal era se não estivesse, não é?”

O rapaz não percebeu. Ninguém percebe piadas de condenados, John. Mas Silva não se importa, e volta a olhar para o ecrã da televisão. Preparam-se as provas femininas, com uma mergulhadora italiana. John quer dar-lhe pouco mais de dezoito anos, mas não sabe quanto, exactamente. Está mais preocupado, neste momento, com o envelope dourado que trouxe, onde mora a causa de toda esta viagem. Chamam-lhe o contrato.

O mais engraçado disto tudo é que nem sequer faço ideia do que consta no contrato. Para o Dr. Correia o assinar, tem de ser algo grande. O Dr. Correia é dos maiores clientes do escritório. Nunca o conheci pessoalmente, mas pelo que li e ia sabendo dele sempre me pareceu um tipo esperto, daquelas velhas raposas empresariais que este país produzia antes da revolução. Um tipo teso, com valores. Ganhei-lhe um caso uma vez, quando foi expulso da Holding da família pelos irmãos. Foi dos meus melhores trabalhos, doía-me a tola só de abrir os olhos e ia perdendo toda a vida social que ainda poderia ter. Mas sabia que tínhamos razão, que íamos conseguir sair por cima. Sabia que a justiça estava connosco. É a melhor sensação que se tem, quando fazemos alguma coisa boa, à séria. Não são muitas as oportunidades, mas ali tive-a. Consegui que ele voltasse ao controlo do negócio, e que recebesse uma indemnização choruda de sete dígitos (mais juros, claro). Mas nunca o vi, nunca lhe falei, durante todo o processo. “Problemas de saúde, complicações da idade”. Passados uns meses vieram entregar uma encomenda ao escritório, e a Lúcia foi deixá-la na minha mesa. Era uma caneta, com um bilhete de agradecimento. Não percebo piva de canetas, mas dava para ver que aquela era uma relíquia, até a caixa brilhava. E no bilhete só estava a assinatura dele, impecavelmente presente. Afonso Salvador Puga Correia. Senti-me agradecido. 

Batem à porta nesse instante, quando a italiana chapa de fuça na água. Deve ser a aguardente. Ao abrir vê a recepcionista boazona, segurando uma bandeja com o copo e a garrafa. Está com um sorriso horrorosamente carregado de batôn. John agradece, pega na bandeja e vê-a partir até desaparecer totalmente de vista no corredor. Pensa que não é normal recepcionistas de hotéis de cinco estrelas virem ao quarto dos hóspedes entregar bebidas. Pensa, também, que é igualmente anormal não estar ninguém no local combinado à hora marcada para assinar um contrato que deve ser importante. E quanto ao bilhete do bar, o que pensa o nosso herói? John enche o copo e dá um trago, antes que fique doido.

A tosse vem de seguida, rasgada, com o ardor do álcool ainda a passar-lhe pelo peito. A bebida é forte, raçuda, e arranha todas as cordas vocais e mais algumas. Era mesmo o que precisava. Olha para o relógio, são nove e vinte sete. Hora de ir. Bebe mais um golo, pousa o copo e vai lavar os dentes.

O bar fica junto à recepção. John até o acha engraçado, minimamente bem decorado, com boas cadeiras. As pessoas falam alto, mas não se ouve uma palavra de português no meio de tanto dialecto estrangeiro. Um piano ficava bem ali, ao canto, para entreter e dar algum balanço às conversas, mas a música jazz que soa pelas colunas (tudo standards bem tocados) assenta que nem uma luva ao espaço. Em suma, temos ambiente.

John está no balcão, de pé, com um copo de whisky com duas pedras de gelo. atento ao que o rodeia. Acha que um piano era essencial para que este sítio pudesse ser mais do que é, um lugar onde o tempo ultrapassasse qualquer emoção. Imagina Rufus Wainwright, no seu modo mais conciso, frágil, nada pavoneante, mas divertido, a entreter uma melancólica noite de Novembro. Pensa nisso, em baladas ao piano que pesam ainda mais as palavras do canadiano, duras, muito duras, para pessoas que como John têm uma dor qualquer para esquecer, uma raiva que é no final de contas inconsequente, e que, tal como o seu portador, está irremediavelmente condenada. Pela primeira vez desde que soube que ia ser despedido e que ia perder Marta, talvez para sempre, John sente a derrota de forma triste e indomável. Gira o copo, as pedras batem. Dá um golo, mas o malte só lhe aquece a memória e carrega a canção, sobre um jantar às oito, hora certa e marcada. Somewhere near the end of the world / somewhere near the end of our lives. As canções não nos dizem nada que não saibamos, mas intensificam, e de que maneira, uma cacofonia que teimamos em inspirar. John acha que isto tudo se deve à bebida. Aquela aguardente era boa. Muito, mas muito boa. E este copo também não é nada mau. Tudo culpa da bebida. Temos noite, John Silva.

Nisto, tocam as 21:58. Qualquer coisa pode acontecer. Mas o paradigma da sala permanece intacto, controlado, na mesma. John pensa se deve dar mais um gole, pelo sim pelo não. Ou as coisas mudam, ou ele é que muda. E de repente, enquanto os olhos pensantes lhe fogem para a entrada, eis que surge um acontecimento, em cheio na sua direcção. Ninguém pára, ninguém olha. Mas é difícil dizer que está tudo na mesma, porque não está. Percebe-se isso pelo espaço, pelo ar. Alguma coisa no ar, sim.

John fita-a, de baixo para cima. As mulheres têm de se olhar assim, dos pés à cabeça: é uma regra. Um tacão alto, fino, sapato padrão de réptil, a frente redonda. As pernas nuas, enormes, tão grandes, e um vestido verde-claro parece que não chega para as cobrir até ao joelho, para bem de todos os nossos pecados. A pele reluzente, tratada. John pensa o quão suave aquelas pernas e aqueles braços devem ser. Como será tocar naquela pele? E o que estará por debaixo do vestido, já de si curto, enrolado ao pescoço e deixando os ombros descobertos? Sardas nos ombros, cabelo dourado, como as pulseiras que traz no braço esquerdo. Os olhos são verdes cor-do-vestido, prontos a roubarem qualquer um que os almeje. Em suma, uma deusa que te comia ao pequeno-almoço sem precisar de mastigar e depois te deixava na miséria do amor para pensares melhor no que é que queres realmente fazer da vida. Uma super-modelo de alta parada, que dá todo um novo sentido à mui brejeira mas terrivelmente acutilante expressão nortenha “avião”. E avança para o balcão do bar. Não, nada disso John. Avança para ti. Toda ela para ti, chegando, parando, respirando, à tua frente.

“John Silva?”

Temos noite, John. Oh sim, se temos.

Anúncios