O Mandatário (Capítulo 1)

John Silva, parado no trânsito num dia de sol em Lisboa. Domingo, dezassete horas e trinta e sete minutos.

Lou Reed morreu. Foda-se. O dia até estava bom, e ele faz-me isto. Que tragédia. Uma só morte, mas tanto impacto. Apetece-me falar sobre a pequenez das coisas, de como me sinto. Mas não consigo. Os carros nunca mais andam, e eu não consigo. Simplesmente não consigo. Foda-se. Foda-se para isto tudo.

O trânsito anda à velocidade de cinco ponto três quilómetros por hora, segundo o velocímetro do GPS japonês que John instalou no seu bólide alemão há mais ou menos dois meses. No rádio do carro toca Street Hassle, minuto seis, segundo dois.

Este tipo está a aguentar uma música toda em guitarra e voz. Só um gajo fodido assim é que conseguia.

“‘But when someone turns that blue / well, it’s a universal truth / and then you just know that bitch will never fuck again”

Ninguém diz ‘fuck’ assim. Ninguém diz ‘fuck’ como ele. É um ‘fuck’ mesmo fodido. E agora entra o baixo. Este baixo também é fodido. Fodido ‘as fuck’. Simplesmente fodido.

Uma mulher de quarenta e sete anos — idade calculada segundo o sentido crítico de vinte e oito anos de John (data em que saiu do ventre de sua Mãe) — uma mulher de quarenta e sete anos acaba de derrapar com o carro em pleno eixo norte-sul. Conseguiu capotar um Ford Fiesta de dois mil e dois, amarelo. Está fisicamente imaculada, embora aparente alguma irritação pelo sucedido.

Ninguém compra carros amarelos de marca americana. Simplesmente, não se faz.

Toca o telemóvel. Toque polifónico “arrebita”. É Marta.

“Estou estou?”

“Já saíste?”

“Uma mulher capotou um Ford amarelo no eixo norte-sul. Nada de grave, mas montou aqui uma confusão que oh lá lá.”

“Isso é mau. Bem te disse que devias ter saído mais cedo.”

“A reunião é amanhã. Não percebo porque é que tive de vir hoje.”

“O Dr. Correia é assim. Gosta que toda a gente faça o que ele manda.”

“E nós fazemos tudo o que o cliente paga. Escrevi já na folha de horas: ‘Domingo, 43 minutos de trânsito’.  Faço questão de que a conta lhe saia choruda.”

“Estás bem?”

“Morreu o Lou Reed, como é que se pode estar bem? Mas porra, está um dia lindo. Podíamos ter almoçado e tudo, naquele italiano de que tanto gostas.”

“John…”

“Claro que agora já não gostas porque és associada e quando chegas a associada tens de gostar de outras coisas. Como é que dizes? ‘É uma nova fase.'”

“John…”

“Ascensões meteóricas. Sempre gostei delas. São fenómenos interessantes. Infelizmente sou demasiado terreno e pouco cínico para ser alvo das mesmas. A natureza deste mundo não quer nada comigo.”

“Adoro quando entras nesses teus discursos cheios de humor.”

“Também gostava quando vinhas lá a casa rir-te deles.”

“John… estás bem?”

John desliga o rádio do carro. Acha melhor, para não enaltecer nenhuma espécie de drama neste momento.

“Qual é o nome do sítio? Hotel do Vigário?”

“Do Vidago.”

“Ao pé de Chaves.”

“Sim. Conhecendo-te, estás só a fugir da conversa. Sabes perfeitamente o caminho e as horas e o sítio onde tens de estar. Sei que sabes.”

“Morreu o Lou Reed. Já não sei o que sei.”

“Sabes me dizer se estás bem?”

Os carros em movimento. Uma onda metálica de carburadores a sair de Lisboa. A placa que diz A1. John suspira.

“Estou óptimo, melhor do que nunca. Mandam-me num Domingo de manhã para o meio dos quintos do mundo fechar um contrato do qual só ouvi falar há dois dias. Dão-me um mandato sem margem para brincadeiras, transferem-me uns trocos para as despesas, e marcam-me hotel por duas noites. Não há negociação possível, é assinar e voltar. Um miúdo de cinco anos, se conduzisse, podia fazer o mesmo.”

“É um contrato importante, dum cliente importante.”

“… E o melhor disto tudo é que é um contrato importante dum cliente importante, coisa que o patrão nunca me dá para fazer mas que se lembrou, por via não sei de que santo, em me passar para a mão às duas da tarde dum Domingo esplêndido. Ligou-me muito educamente, perguntou até se me estava a interromper e tratou-me pelo primeiro nome. ‘Jóne’, com aquela entoaçãozinha dele. Disse que gostava muito do meu trabalho, que o Santos de ‘corporate’ estava sempre a falar de mim, e que eu era o tipo ideal para tratar deste problema. Foi tão, mas tão simpático que nem sequer tive coragem para lhe dizer que trabalho em contencioso e não ‘corporate’, que não conheço o Santos, de que está um dia lindo de sol lá fora, de que sinto a tua falta, e de que a última coisa que me apetecia naquele preciso momento era receber uma chamada dele. E agora aqui estou.”

“Devias ver isto como uma oportunidade. Ele está a ver se pode contar contigo, se és bom o suficiente para ficar no escritório ou não. E tu, que sabes que é o melhor de todos nós, não o vais deixar ficar mal numa coisa tão pequena e fácil.”

“Escusas de me tentar enganar, sei que não é assim. Há um mês que não tenho nada para fazer no escritório. Chego, bebo café, leio os jornais, fico a pensar na morte da bezerra durante oito horas e vou para casa. Soube pela Lúcia que me vão dizer qualquer coisa esta semana sobre se fico ou não. Lembras-te do Edgar? Fizeram-lhe o mesmo, tal e qual. Passa na ordem, trabalha um ano, um mês sem fazer puto, fala com a Lúcia, ouve dizer que na próxima semana sabe se sim ou sopas, e de repente rua. Não é preciso pensar muito para ver o que me espera.”

“Não sabes. Estás a exagerar.”

“Foste tu que lhe disseste para me dar isto?”

Encosta na berma. Consegue sentir, no meio do barulho de estrada e do diminuto som do rádio, naquele momento, uma pequena hesitação do outro lado da linha.

“John, porque é que achas isso?”

“Diz-me lá. Foi o teu coração mole que teve pena deste pobre advogado e pediu ao patrão, com esse teu novo jeito de associada, para dar uma primeira e última oportunidade aqui ao mestre do contencioso, o rei da barra, antes de o mandar embora?”

“Não estás a ter graça.”

“Às vezes não quero ter.”

“John, pára com isso, e diz-me como estás, por favor.”

“Foste ou não foste?”

“John…”

Uma vez disseram-lhe que a esperança média de vida duma pessoa na berma duma auto-estrada é de vinte e cinco minutos. Sempre pensou se os valores eram os correctos. Acha que foram arredondados. De certeza que foram arredondados.  A média não pode dar vinte e cinco. Tem de ser uma coisa mais solta. As pessoas gostam de números certos, fáceis de usar. Ele gosta dos números tal como são, o que é visto como uma rara qualidade, hoje em dia. Há quem até lhe chame manias, mas ele está-se a borrifar para isso. As coisas são o que são. Um carro pára à sua frente. O condutor (trinta e quatro, talvez três, anos) abre a porta e sai, em direcção à sua viatura, mas John faz-lhe sinal para se pirar.

Está tudo bem pá, vai-te embora. Estou parado na berma com os quatro piscas mas está tudo bem, meu grandessíssimo filho-da-puta. Vai para o raio que ta parta com a tua preocupação e deixa-me em paz. Não se passa nada. Estou a falar ao telefone com a miúda dos meus sonhos, que já não me liga meia e estou a tentar controlar-me para não me armar em parvo. É simples, percebes? Vai, isso, segue viagem. Isso, acelera e baza. Está tudo bem, sim, sinal de óquei. Podes ir? Obrigado. Adeus. Baza.

“John?”

Aquele tom preocupado e irresistível. Pensa que ela ainda o sente de alguma forma. Mas o que é que pode fazer, dadas as circunstâncias, senão tremer, desiludido com a sorte?

“John, estás aí?”

“Morreu o Lou Reed. Não é trágico, de alguma forma? O Lou Reed. O rei dos reis. Um tipo fodido, o mais fodido de todos. Isto afecta-me, sinceramente. Ainda para mais está um bom Domingo. Se ainda gostasses de andar de bicicleta podíamos ir para ao pé do rio. Ia-te buscar a casa e pagava-te o almoço. Dizia-te duas ou três piadas pelo meio. Fechava a porta do carro e declamava-te o ‘Perfect Day’ com voz de estrela. Podíamos fazer elegias em casa durante a noite, escrever um obituário com todos os exageros e mais alguns, como se o conhecêssemos há anos. Não sei. São várias as possibilidades que tenho na cabeça. Desculpa, sei que te estás a foder para elas. Vou desligar.”

“Ouve…”

“Tenho de ir senão atraso-me. Já perdi bastantes minutos com esta brincadeira. Só querias saber se eu estava bem e a caminho, não é? Obrigado pela preocupação. Não estou bem e estou a caminho. Quanto a esta — como é que disseste? — ‘oportunidade’…

“John…”

“… Foi uma boa ideia. Mas sabes que não serve de nada. Não há volta a dar. Esta semana vou para a rua. É simples.”

O suspiro dela, estranhamente imediato. É preciso rematar a conversa.

“Vemo-nos terça-feira Marta. Adeus.”

O carro volta para a faixa principal. Num filme trágico as nuvens começariam a fechar o céu, e uma chuva redentora abater-se-ia sobre o herói. Mas nesta auto-estrada nacional número um abate-se um melancólico pôr-do-sol, extremamente rosado e aberto, próprio do belo dia que findou. John nem lhe deu espaço para responder, carregando no “desligar” mal proferiu o adeus. Pareceu-lhe sincera, a atitude dela. Só estava a tentar o seu melhor. O problema é que às vezes o melhor não basta, está tabelado por baixo. O que se deve fazer nestas alturas é voltar aos números. É nisso que John tenta pensar. Volta a ligar o rádio e põe a música nos cinco minutos e treze e continua a conduzir.

Lou Reed morreu. Foda-se. 

Tem de estar no Vidago até à meia-noite.